Faz pouco mais de dez anos que todos os dias entro em sala de aula na condição de professor, instrutor, mediador, facilitador ou seja lá qual termo classifique àquele que “ensina” ou compartilha seus conhecimentos. Faço isso norteando minha didática munido de uma experiência que funde saberes adquiridos empiricamente e saberes que conquistei através de estudos autônomos sobre os processos de ensino-aprendizagem. Participei ainda com efetividade de pelo menos oito congressos internacionais de tecnologia na educação e ainda posso somar as capacitações pedagógicas que fui submetido nas instituições de ensino que trabalhei e estudei.

Tive desde muito jovem a convicção de que atuaria como professor e a observação cuidadosa dos mestres que tive no decorrer de minha trajetória escolar me inspiraram a procurar sempre honrar a prática e o título de docente fazendo de minhas salas de aula laboratórios de desenvolvimento técnico e criativo. Nessa curta, porém intensa caminhada como professor tenho vivenciado e defendido o estabelecimento de algumas etapas essenciais para uma formação mais sólida daqueles que têm a pretensão de adentrarem no universo da fotografia.

Torre Malakoff, 2009

Torre Malakoff, 2009

Fui também aluno de música do saudoso Centro Profissionalizante de Criatividade Musical do Recife onde percebi que havia um cadenciamento natural e eficiente no envolvimento do aluno com a música e o desenvolvimento de suas competências técnicas e de expressão artística. Em outras palavras, existe na música um processo que se inicia em primeiro lugar de fora para dentro. Antes de aprendermos sobre instrumentos musicais somos expostos naturalmente à audição de muita música. Há música por toda parte, na escola, em casa, no transporte coletivo, nas festas.

A vida inteira somos submergidos em situações onde a música está presente e isso faz com que haja a internalização de um repertório vasto de referências e linguagens, sejam boas ou ruins. Não vamos entrar no mérito sobre gosto estético, mas é durante esse envolvimento natural que se definem, por motivos diversos, as afinidades com um gênero musical ou outro. O interesse em aprender música e manejar instrumentos musicais vem indiscutivelmente depois da exposição à música e a percepção de sua influência na vida do indivíduo, não o contrário.

Tenho observado e registrado a triste estatística que 7 em cada 10 alunos que procuram por cursos de fotografia não têm sequer uma única referência de um fotógrafo ou nicho da fotografia que os tenha inspirado o interesse. A escolha da produção de imagens como ocupação, hobby, expressão artística ou profissão acontece por motivações que denunciam a superficialidade da relação dessas pessoas com o universo da fotografia, mesmo ela sendo tão presente quanto a música no dia-a-dia da sociedade.

Numa primeira etapa tenho articulado a apresentação do trabalho de alguns fotógrafos de relevância na história da fotografia. Não só apresento, mas dou a tarefa semanal para que cada aluno pesquise também uma referência e exponha para o grupo, relatando um pouco sobre a vida e obra do fotógrafo pesquisado. Na apresentação dessas referências buscamos estimular a leitura técnica e conceitual das fotos e não só a apreciação estética das mesmas, isso partindo do fundamento que a “leitura” contínua fará o processo de “escrita” mais fluido e criativo.

Fotografia antes de tudo é uma ferramenta de comunicação, e como tal tem seus mecanismos estruturais e elementos de linguagem. Para que nossa comunicação aconteça de forma eficiente é importante que tenhamos a ciência das técnicas fotográficas e suas aplicações, bem como o que suas resultantes estéticas ou símbolos presentes nas imagens podem significar para aqueles que serão os receptores dessas mensagens.

Para o fotógrafo, o entendimento e domínio das aplicações práticas dos controles de captura da luz, ISO, abertura do diafragma e velocidade do obturador tal como suas resultantes estéticas só serão conquistados se o estudante for exposto à várias condições de luz e cenas diferentes. Em função disso a segunda etapa da proposta de formação do fotógrafo consiste na execução de reproduções de algumas das fotografias apresentadas na primeira etapa. A reprodução proporciona ao fotógrafo a vivência de situações problema semelhantes às enfrentadas pelo autor da foto e permite a aquisição de uma maior desenvoltura no manejo dos controles da câmera. Na música quando se iniciam os estudos de um instrumento é usual que se estimule a prática de pequenos exercícios para desenvolvimento de técnicas e um repertório de composições simples de outro artista. Ninguém começa a aprender um instrumento compondo as próprias músicas, não é comum. Tocar as músicas dos outros conduz o estudante à adquirir intimidade com o instrumento e mais uma vez, reforça o repertório de técnicas e linguagens que será explorado nas etapas seguintes.

A terceira etapa segue uma prática ao qual fui submetido no Bacharelado em Fotografia da AESO. Nos primeiros períodos o trabalho predominante designado pelos professores das cadeiras relacionadas à criação e linguagem consistia em contínuas releituras da obra de outros artistas. Percebi a importância das etapas anteriores na minha formação como fotógrafo terem sido consistentes, e, infelizmente concluí que meu insucesso como músico aconteceu justamente por minha indiferença com a submissão às releituras naquela que seria a terceira fase de minha aprendizagem. Nas bandas que toquei sempre defendi que a criação deveria ser prioridade e reproduzir, reinterpretar/reler músicas de outros artistas consagrados era sinônimo de perda de tempo, dinheiro e dignidade. “Tiro no pé”!

Fotografia reinterpretada

Vivian Maier

Releitura da Vivian Maier

Foto/Releitura: Bruno Albuquerque

A releitura é a etapa onde o aluno já munido de um maior acervo de técnicas e linguagens imprimirá um pouco do seu olhar e criatividade em intervenções nas obras de outros artistas.

É o período onde devemos começar a incitar o pensamento criativo a partir da reflexão sobre o que lemos e reproduzimos.

“Reler uma obra é totalmente diferente de apenas reproduzi-la, pois é preciso interpretar bem aquilo que se vê e exercitar a criatividade. Ao recriar uma obra não é necessário empregar a mesma técnica usada pelo artista na obra original. Na releitura de uma pintura podemos utilizar outras formas de expressão artística como o desenho, a escultura, a fotografia ou a colagem. O mais importante é criar algo novo que mantem um elo com a fonte que serviu de inspiração”. Vânia Myrrha

Na quarta etapa trabalhamos a fotografia como ferramenta de vazão do pensamento, uma materialização de imagens que se projetam antes de tudo na cabeça, e, essas só podem ser fidedignamente reproduzidas se o fotógrafo estiver munido de know-how suficiente para assim fazê-lo.  Nessa fase buscamos assuntos de relevância coletiva e os exploramos fotograficamente. O estabelecimento de um tema para ser pesquisado, pensado e desenvolvido através da fotografia gera movimento para a prática e aplicação de tudo que foi estudado nas etapas anteriores. Tendo o aluno experimentado de forma aprofundada os processos sugeridos é certo que a produção autoral aconteça com muito mais inspiração e fluidez e consistência.

Não acredito que o acúmulo de saberes técnicos bastam para que se faça uma boa foto, nem uma boa ideia ou boas reflexões sobre um determinado tema sejam suficientes para uma representação consistente sobre o mesmo.

Existe a necessidade de que esses dois departamentos sejam equilibrados: saber “o quê fazer” e saber “como fazer”. Evidentemente ainda não tenho prerrogativa para sugerir esses processos como verdade absoluta sobre a formação do fotógrafo, mas tenho constatado continuamente que meus alunos finalizam os cursos de fotografia com uma bagagem técnica e criativa muito mais rica do que a minha própria nos primeiros cursos que fiz no início de minha carreira. Permaneço observando, registrando e compartilhando. Até a próxima!